Lima Duarte foi homenageado nesta segunda-feira (04) durante a premiação da Associação Paulista de Críticos da Arte (APCA). No entanto, uma fala racista ofuscou completamente o troféu por sua trajetória na televisão. Em cima do palco, o ator, que pode ser visto recentemente na reprise de “A Rainha da Sucata”, disse que se negou a ir a uma zona de prostituição aos 15 anos por só ter mulheres negras.
Lima relembrava sua chegada a São Paulo e contou que um amigo o chamou para a “zona” da cidade. O jovem teria explicado que tinham duas ruas onde acontecia a prostituição, uma mais cara e outra mais barata, onde, segundo o veterano, “só tinha preta”.
"Não fui. Moleque de rua, dormia embaixo de caminhão. Não fui porque só tinha preta... Que vida, hein, que coisas eu fui percebendo ao longo da vida. Então, nós fomos na Aimorés [a mais cara]", disparou o ator, que dá um presente incomum a Fernanda Montenegro todos os anos.
A fala de Lima causou choque e protestos entre mulheres negras que foram premiadas posteriormente. Vencedora na categoria Dança por “Minas de Ouro”, a coreógrafa Carmen de Luz destacou que as mulheres pretas “não estão no mundo para serem recusadas". "Mulheres pretas, levantai-vos, levantai-vos, celebramos as nossas presenças", declarou, sob ovação do público.
Premiada como melhor atriz de cinema, Shirley Cruz disse que amava Carmen em seu discurso e rebateu a fala de Lima. "Sou uma mulher de pensamento próspero, de atitudes prósperas. Sou a prosperidade das minhas ancestrais. Prosperidade é um direito nosso. Vejam só, de rejeitados a premiados."
Grace Passô, premiada pela direção cênica da ópera “Porgy and Bess”, também fez coro ao discurso de Carmen. “Essa artista, que lembrou que nós mulheres negras não nascemos para ser negadas."
Em nota enviada ao jornal Folha de São Paulo, Lima tentou justificar que contou uma memória da sua infância, de "um Brasil muito duro, de um menino sem formação, vivendo na rua". "Aquela fala nasceu como retrato de um tempo e também como forma de protesto, do olhar de quem respeita e entende uma luta que é de todos.”